A legendagem vs dobragem dos filmes

Em Portugal sempre tivemos por hábito legendar os filmes, séries, ou qualquer outro tipo de programas, sejam no cinema ou na televisão. Quando aparecia alguma novela ou série dobrada, soava mal ao nosso ouvido. Era intragável. As vozes não correspondiam aos movimentos das bocas, a dobragem mais parecia um texto lido sem pontuação e muitas vezes não havia diferença entre voz feminina ou masculina! Era preferível ver na língua original sem legendas.
Surpreendentemente, os últimos filmes dobrados de animação que tenho assistido têm-me agradado imenso. É óptimo ver uma sala cheia de crianças de pouca idade a rir às gargalhadas com uma parvoíce inocente do personagem. A qualidade das vozes e a própria dobragem são excelentes.
É óbvio que para algumas pessoas com dificuldades de leitura, as legendas passam demasiado depressa para poderem acompanhar o filme. Mas por outro lado, obriga a apurar o ouvido para fazer acompanhar o som com a legenda. O problema torna-se maior para os invisuais, que há falta de dobragem, são obrigados a perceber a língua estrangeira, maioritariamente o inglês. Por outro lado, os surdos sofrem com a falta de legendagem ou linguagem gestual. Felizmente já é possível ver diversos canais de televisão com legendagem em teletexto dirigida principalmente ao público surdo.
Por outro lado, a legendagem nem sempre é das melhores: a tradução apresenta erros, algumas falas ficam sem tradução e as próprias legendas ocupam uma parte da imagem. Recordo-me de uma tradução engraçada onde a palavra “toast”, tratando-se de um brinde, aparecia como torrada! As primeiras filas do cinema são para esquecer, enquanto estamos a ler a legenda já perdemos parte da acção na imagem…
Tanto a legendagem como a dobragem têm as suas vantagens e as suas dificuldades, mas o que se pode retirar daqui é que tanto uma como a outra pretendem ser um auxílio não só à inclusão linguística, mas também à inclusão social.
Os adeptos da legendagem defendem que este método permite melhorar as capacidades de leitura e de raciocínio do telespectador. E de facto até poderão estar certos, pois uma Proposta de Resolução do Parlamento Europeu: «Apoia a legendagem dos programas de televisão nas línguas nacionais, em vez da dobragem e das vozes sobrepostas, a fim de facilitar a aprendizagem e a prática das línguas da UE e uma melhor compreensão do contexto cultural das produções audiovisuais; Recomenda aos Estados-Membros que os programas televisivos, sobretudo os programas infantis, sejam legendados e não dobrados». O Parlamento Europeu diz ainda que: «a possibilidade de o público europeu desfrutar de obras realizadas noutras línguas deve ser encorajada através de um melhor ensino de línguas, mas uma menor utilização da dobragem favorece também a aprendizagem de línguas.»
Naturalmente, esta recomendação deixa algumas questões no ar. Se por um lado pretende a inclusão linguística, por outro deixa de parte a inclusão social daqueles que têm maiores dificuldades em acompanhar tanto o modelo da legendagem como o modelo da dobragem. As pessoas com problemas de literacia até poderiam beneficiar desta medida, mas na sua maioria são idosos com pouca disposição para acompanhar a leitura de legendas e com grandes dificuldades de visão. Também aqui os invisuais são obrigados a aprender a língua estrangeira se quiserem perceber alguma coisa.
Trata-se, portanto, de uma medida aquém da realidade, pelo menos da portuguesa, mais indicada para estimular um público jovem multilingue frequente em vários países da União Europeia, que têm mais do que uma língua oficial. Para um público monolingue como o português, ainda há muitas batalhas a travar.
Valha-nos o ensino precoce da língua inglesa nas actividades de enriquecimento curricular.

